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TEXTO JOVENS LEITORES | Casa das 20 milhas

O alento já quase o vencia. Até por isso, a cada pouco fazia uma pausa que lhe servia como retomada de fôlego e de ânimo. Quando também olhava de soslaio abaixo as dezenas de degraus  pedregosos que causavam enorme vertigem de tamanha inclinação. Nessa altura, mal via o brilho metálico da cadeira de rodas que tivera que deixar de empurrar no início da subida. Ela tinha sido muito útil, pelo menos nos 3 primeiros quilômetros, mesmo o terreno sendo bem acidentado. Era melhor ter que forçar as rodas a carregar o desfalecido corpo de sua amada tendo os movimentos limitados pela roupa contra a radiação.

O céu estava normal. O mesmo marrom lavado dos dias de tempestade solar severa, já tão rotineiras. Nunca que iria imaginar que justamente em meio ao tradicional caos que esse fenômeno  trazia, Helenor tivesse que ser socorrida. Astur tinha consciência que quase não adiantaria ir a hospitais, afinal nada de eletrônico funcionaria. Contudo, não tinha ideia do que poderia fazer para o caso. Nada conhecia sobre tratamentos para seres como ela. Helenor não comentava sobre sua origem. Ele só sabia de qual quadrante ela tinha vindo por reparar no I.D. que outro dia largou sobre suas roupas deixadas em meio à euforia da paixão, de energia tão intensa a ponto de marcar o cosmos.

Enfim, não havia alternativas, restavam mesmo os desacreditados hospitais. O médico que os recepcionou apenas a examinou superficialmente e logo declarou “não tenho especialidade em humanoides do Universo. E pelo o que sei, de qualquer forma, seriam necessários equipamentos específicos.” Astur olhava a face albina dela ficar cada vez mais cinzenta. “Acho que ela não irá resistir até a tempestade acabar doutor. São pelo menos três dias, né?” O tal médico que já se levantava de forma tão dura quando a cadeira que sentava, largou “indico levá-la de volta para terra de origem. Não  há escolha. Só te resta a casa das 20 milhas. É a mais próxima e funciona, mesmo em dias assim.” Encarando com assombro o médico pela arriscada sugestão, Astur largou “pois nada mais me resta então.”

Teve uma altura da cronologia humana emulada onde foram descobertos vários pontos de dobra de universo. Todos foram adequadamente mapeados e divulgados para a população. Ainda mais que, após os contatos com todos os seres, determinou-se que seria território livre para qualquer um dos diversos mundos que quisessem circular por eles. Nem todas as dobras tinham o mesmo poder energético, o que limitava a distância de lançamento de cada uma. Essa dobra que ficava mais próxima à Astur impulsionava apenas 20 milhas solares. O suficiente para chegar às coordenadas registradas no I.D. de Helenor.

Assim, ao avistar o pórtico de uma das várias muralhas que guardavam o lugar, Astur buscava alívio, mas não o encontrava por saber das dificuldades que viriam. O problema era que da mesma forma que o livre trânsito era um benefício geral, também se tornou um suplício para os de bem. Já que todo o entorno das casas de dobra foi de alguma forma dominado por distintas etnias de seres. E como devem imaginar, guerras foram travadas pelos territórios até que houvesse uma  intervenção da ordem galáctica que amenizou a situação, mas não extinguiu.

Astur arrastava-se pelo disforme labirinto de paredões do edifício tendo um defasado mapa do lugar distribuído pelas entidades. Só que ele bem tinha noção de que isso nada ajudaria na defesa dos quem encontrasse com más intenções. Todos contavam a quantidade de trapaceiros, oportunistas e bandidos que se aproveitavam da isenção de soberania local para aplicar seus golpes. Astur com Helenor nos braços tropeçava nos pedregulhos e nas pessoas passantes, já que estava bem movimentado por conta da tempestade. A cada olhar trocado nos corredores um arrepio.

Com insistência, ele reparava nas sombras disformes que pareciam seguir a eles. Usava toda sua agilidade para executar o caminho o mais breve que conseguia decifrá-lo. Porém, não tão rápido quanto os ardilosos elementos que sabiam inclusive dos atalhos. Atrapalhando-se com o peso de Helenor em seu colo, Astur não conseguiu evitar o erro: acabou encurralado em um corredor desmoronado. Sem demora, as sombras fizeram presença para açoitá-los.

A disputa era nítida entre os bandidos. Trabalhavam cada qual solitariamente aos seus propósitos. Logo uma discussão tomou forma entre eles pela rixa, foi o fôlego que Astur precisava para desvencilhar-se um pouco, até que… um estrondo veio acompanhado de pedras rolando.

Astur teve que se jogar para longe arremessando Helenor no chão. Lamentou o impacto dela mais do que o do seu joelho, porém largou as dores depressa e viu alguém acenando para que ele o seguisse. De ímpeto, acomodou Helenor nos braços e acompanhou o estranho sem saber se era amigo ou inimigo.

Com as costelas ardendo a cada inspirada, Astur trotou por intermináveis alas de pedra impregnadas pelo cheiro de mortes seculares. Seguindo um ser com um longo casado que oscilava a cada rajada de vento encanado de algum lugar, parecia devaneio. Será que Helenor tinha alguma consciência do que lhe ocorria? Restava vida e amor naquele corpo? Por que o destino maquinou esse ardil tão bárbaro? Destino?

Astur estava tão exausto que seus pensamentos chegavam a construir motivos irreais para justificar o episódio detestável. Tal conceito há tantos séculos dado como infactível. As forças do impiedoso destino que comprovadamente não existiam vieram em consolo.

Claro que o primeiro momento dele com Helenor pareceu uma sublime ligação atômica.  Assim como os acasos que ambos sabiam que não eram acasos. Tudo fruto das boas escolhas das alternativas quânticas que fizeram e os trouxeram para tempos de incontável alegria e também para a trama presente. Apesar desse conhecimento, a paixão distorce a lógica e entorpece os mais profundos conceitos.  O que leva os amantes a situações de extremo furor independente do infortúnio, como o de agora de Astur.

Mas enfim, o destino, ou melhor, as probabilidades apresentaram um novo desfecho ao que parece ser o fim desse universo ardoroso. Astur finalmente chegou à câmara da casa das 20 milhas. Sem pensar e muito menos olhar a estranha figura que seguia, acomodou Helenor no canto do compartimento de transporte e correu ao rudimentar painel para registrar a sequência do quadrante. Mal terminou de verificar as ruidosas engrenagens mecânicas se ajustarem, sentiu um baque na lombar que o fez experimentar o mofo do chão. Ele ainda conseguiu olhar para o rosto de espanto daquele alguém que o trouxe até ali e também para o outro que atirou nele.

Graças à força da gravidade que ainda agia em um dos seus braços por estar pendurado, pôde acionar a alavanca do maquinário. E então, perceber a disparada dos dois seres para o corpo desfalecido de sua amada Helenor antes de tudo se tornar opaco, um tanto nebuloso e pensar novamente no dito destino. Qual o fim será que ele preparou?

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