Caderno da Renata

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TEXTO JOVENS LEITORES |Breu no brejo

Era um dia normal de férias. Normal mesmo. Daqueles que no final de tarde a turma não sabia mais o que fazer. Estava tudo esgotado. Até a água do céu. Tinha chovido a beça no dia anterior. E hoje, com o sol escaldante de verão, fazia um bafo. Transpirávamos no depósito dos fundos da casa do Abobrão. O lugar empoeirado, imundo e cheio de teias de aranha precisava de uma atenção para continuar como sede da galera. Mas quem se propunha?

- Eu digo que devemos jogar detetive. – declarou Bolota.

- De novo! – soltou Cléo.

- Que tal então videogame, hein?! – sugeriu Bolita, irmão gêmeo de Bolota. Ambos bem gordos, deu para sacar pelos apelidos, né?!

- Cadê as lanternas? – perguntei cortando a intensa discussão sobre o que fazer até a hora de ir para casa. O toque de recolher era 8 da noite. Uau! Mas só porque era férias. – Aqui dentro fica escuro assim que pega sombra. Daqui a pouco não vejo mais ninguém.

- E se contássemos histórias de terror? – animou-se Bolita com a lanterna fazendo sombras no rosto.

- Horror somos nós! Dá uma olhada: um pseudo indiano; um casal de gêmeos gordos com nariz de porco; uma garota que esconde o narigão com o cabelo preto escorrido; um ruivo que parece um boneco de neve; e eu, uma vara de virar tripa!

- Isso que é amiga! – riu Cléo da descrição do grupo. – Esqueceu o Pacheco. Olha ele aí!

Pacheco era o mais sinistro. Era atarracado, quase anão. Tinha cabelos pretos e um bico de viúva, igual ao pai. A diferença é que o pai andava sempre de terno preto (assustador, que nem família Adams) e o Pacheco, para completar, era estrábico e tinha um olho vazado. “Foi um gato que eu estava maltratando” contou para a galera.

- Gente, a vaca foi pro brejo! – disse de forma medonha e animada. E logo continuou – Vamos lá ver?!

- Quê, seu doido?! Fale coisa com coisa! – pedi sentindo um arrepio ao mirar o olho defeituoso dele sem querer.

- Ontem depois da chuvarada, a vaca do seu Bento foi pro brejo! Atolou e morreu! Tá lá, mortinha na lama! – falou Pacheco com um sorriso torto estranho no rosto.

- E o que exatamente você está pensando, cara? – questionou Abobrão maquinando.

- Vamos lá mexer nela. Cutucamos os olhos, o rabo dela, colocamos paus nas orelha dela e no…

- Pacheco, Pacheco, PACHECO!!! – interrompi desesperada – O seu olho vazado! Cara, ele está me olhando daquele jeito que não gosto. Está me assustando!

Todos aproveitaram a pausa para analisar a proposta. Eu mesma fiquei imaginando a cena da vaca atolada na lama, já fedendo depois de um dia todo nesse solão. E um bando de pivetes perturbando seu sono eterno. Na Índia perturbar vaca é pecado!

- Ô Raj! Você é indiano mesmo, ou é só cara? Te incomoda esse troço da vaca? – fui perguntando para ver se alguém me ajudava na motivação.

- Não tudo bem! – disse Raj acanhado como sempre, mas sendo o aval esperado.

Então, nós com nossas lanternas seguimos pela estradinha lateral ao terreno baldio que levava até a cerca da chacrinha do seu Bento. O sol já ia baixinho, e quem visse a trupe logo chegaria à conclusão que coisa boa não iam fazer.

A vaca estava como imaginei: morta com as patas presas no brejo. Só um estava para fora.
- Coitada. – soltei vendo os guris correndo para o bicho morto.

Era galho nas narinas, boca sendo aberta, olhos sendo espremidos, até o ubre não foi poupado. Estava cheio de leite! E os moleques racharam o bico espirrando leite uns nos outros. Até Cléo entrou no jogo de quem mandava mais longe. Ok, depois de um tempo me convenci a participar. O duro era a lama. Os pés afundavam no lodo. Bolota logo perdeu o chinelo. E com a escuridão, nem as lanternas ajudavam a achar o sapato no meio do barreio. A cena era arrepiante! Uma vaca morta toda estrebuchada por um bando de desocupados de férias e suas lanternas, imundos de barro. Então, alguém teve a grande ideia:

- Gente, vamos tirar ela do brejo para a gente poder mexer sem ficar nessa meleca! – propôs Raj deixando todos espantados pela inusitada e incomum manifestação.

Sem nem pensar muito, cada um pegou em uma parte da dita. Os gêmeos empurravam as costas da vaca; Pacheco e Raj puxavam a pata; Eu e Cléo ficamos com a cabeça – que pesada! – e o  Abobrão com o traseiro.

- Que merda! – gritou Abobrão assim que mexeu o quadril do bicho – Ela está cagando em mim!

Ugg! – apenas ouvi de Cléo – Continua aí seus molengas!

A luz direcional das lanternas largadas a alguns metros apenas aumentavam a tensão da cena que os gemidos do grupo e o barulho do vácuo dos pés na lama faziam. Vultos no escuro, sons assustadores, um morto e um bando de mal intencionados. Macabro! E de repente:

- Muuuuuuuuuuuuuuuuuu! – mugiu longamente a vaca.

Sem nem tomar fôlego, foi um atropelo só! Nada se viu na escuridão do potreiro enlameado. Apenas gritos de pânico em todas as direções. Eu mesma corri o mais rápido que podia me batendo em tudo que era árvore. Caindo, levantando e resvalando por causa do barro nos meus pés. Quase que pressentia a vaca correndo atrás de mim. Sentia as bufadas dela. Mas, quando não aguentei mais, tremendo de medo e pela falta de ar, parei no breu. E então do nada ouvi um risada assustadora. Depois outra, logo outra e outra.

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