Caderno da Renata

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TEXTO JOVENS LEITORES|Lopiros

O vento estava forte, movimentava para lá e para cá as folhas que estavam junto aos escombros, do que em algum tempo, foi uma praça. Agora, parecia mais um bosque entre ruínas arqueológicas esperando um historiador corajoso.
O sol caia rapidamente e a temperatura acompanhava energicamente a cadência subjulgada. A atmosfera que eu sentia era densa. Restos de expectativas quase esquecidas misturadas com o medo que paralisava a maioria dos outros sobreviventes. Não a mim!
Fazia parte da minha rotina encontrar uma alternativa para vencê-los. Eu não interpretava isso como esperança. Não! Era questão de sobrevivência mesmo!
Não sobravam muitas alternativas para nós: eu, minha irmã e meu namorado. Chamávamos-nos de trio. Fazíamos tudo juntos. Só nós três. Tinham os outros. Mas nessa altura, cada um agia praticamente por si.
Praticamente, pois vez ou outra alguém surgia com uma daquelas ideias brilhantes que iria solucionar tudo. Como estava previsto para ocorrer nos próximos minutos.
Um grupo se reuniu em um dos prédios com um pouco de segurança, tipo um bunker. Não apareceram muitos. Primeiro porque espalhar notícias nas atuais conjunturas era serviço para heróis – e tenho que avisar que já não restaram muitos, morreram em alguma das muitas batalhas que ocorreram por aí -, depois por não ter sobrado muita gente mesmo.
Mas, por sorte, ainda contávamos com resquícios das mais arcaicas formas de comunicação. Não é muito, mas hoje em dia faz total diferença.
– Bem, vamos em frente! Temos que ir logo! – falei para os outros do trio.
As mãos nervosas se esfregavam de angustia. Também pudera, ouvi um boato, que chegou meio por telefone-sem-fio, (era praticamente assim a comunicação entre os que restaram) que contava o seguinte: em um lugar a leste, depois de cruzar a linha de trem, forma uma estranha e abençoada bruma que afugenta os lopiros.
Quero fazer um parêntese aqui. Muita gente não sabe ao certo a diferença entre os vampilobos e lopiros. Mas eu gosto de ressaltar, pois é totalmente outra coisa! Veja só: o vampilobos tem mães vampiras e pai lobisomem. Esses voam, são peludos, mais fortes que os vampiros e mais fracos que os lobisomens. Alimentam-se só de sangue e ficam mais fracos na lua cheia. E os lopiros têm mãe lobisomem e pai vampiro. Não voam, se alimentam de carne fresca e sangue, ficam mais fortes na lua cheia. São praticamente cegos, mas tem um olfato bem aguçado. Ambos só circulavam de noite. Mas às vezes são encontrados na escuridão dos escombros das cidades. Pelo menos é o que sabemos imaginando a mistura dos genes. Parece lógico agora que já foi documentado. Mas teve muitos caras que morreram para chegar nessa conclusão!
– Vai ser pedreira! – ouvi minha irmã falar ao mirar pela fresta o resto de asfalto que tinha na frente do esconderijo.
O tal boato garantia que nesse tal local depois dos trilhos, imerso em brumas, tinha uma casa com vários quartos. E perto, havia uma mini vila onde muitos de nos estavam vivendo. Livres de vampiros – mesmo porque já foram extintos na última grande batalha junto aos vampilobos (ufa) -, lobisomens e lopiros. Por isso, o trio preparou para aventurar-se pelas inseguras ruas destruídas para tentar chegar lá.
Mesmo sabendo que eles só saiam a noite, era arriscado ficar fora do esconderijo, pois eles ficavam a espreita em subterfúgios escuros só aguardando alguém dar mole.
– De qualquer forma temos que tentar! – afirmei para os outros.
Catamos o que nos restou: poucas roupas, alguns restos de civilização como uma sobra de um vidro de perfume e as raízes que nos alimentavam.
O combinado era que ao nascer do sol todos deveriam sair. Com o volume de gente, seriam menores as chances de pegarem alguém. Em bando, sabe? Como faziam os animais antigamente na África selvagem.
– Vamos! – ordenaram ao grupo.
Todos assustados, aflitos, com pupilas dilatadas e cabelos embaraçados. Restos de seres humanos perambulando entre o medo e o desespero.
Atravessamos quase correndo as montanhas de entulhos com árvores brotadas. A respiração doía mais do que a unha encravada do meu pé. Era uma angustia muito grande! Não havia certeza que estávamos a salvo no tal lugar.
– É só mais um boato! Não devíamos ter saído de lá! – disse meu amor.
– Temos que tentar! – encorajei os outros.
Andamos praticamente trotando o tempo todo. Foi um longo percurso. Só não sei dizer se foi pelo medo ou por uma distância real.
-É mais longe do que tinha entendido. Será que estamos certos? – agitou-se minha irmã agoniada.
A noite estava em nosso encalço e os temores gritavam nos nossos ouvidos. O movimento do bando lembrava uma torrente de uma enxurrada: ágil, feroz e incontrolável. Todos estavam desesperados e em pânico para chegar aos trilhos!
– Lá! – gritou alguém a frente.
Então, vi todos correndo para uma planície com um tipo de brejo. E de lá nascia riscos enferrujados de metal que antes eram trilhos.
– Aqui o trem apitava ao passar pela cidade. – comentaram tristemente.
A avalanche de pessoas ultrapassou a fictícia fronteira descrita. Imaginavam que por algum motivo louco os seres das trevas não passavam para além da linha marcada dos trilhos. Não tinha lógica, só desespero por sobreviver.
A casa flutuava logo ali, quase engolida pela bruma que brotava das poças do charco. Estava tudo escuro. Claro! Não tem luz elétrica a muitos e muitos anos. Logo, alguém com uma coragem imensa entrou primeiro para averiguar se estava seguro, sem os demônios. Segundos suspensos entre a inspiração e o suspiro de alívio. Aguardamos presos pelo medo. Então, veio o grito que confirmou a nossa entrada.
O trio segurou firmes as mãos para afirmar a confiança no objetivo e não se perder no breu dos cômodos. Andamos tateando com os pés até encontrar um local reservado e de difícil acesso para os lopiros. Tínhamos que nos esconder.
– Enfim! – Suspirei assim que nos amontoamos no vão entre uma antiga lareira e o sofá que empurramos.
Ouvimos o martelar das portas que pregavam junto a pouca esperança de encontrar a tal vila no dia seguinte.
– Tomara que isso nos proteja até amanhã. Não confio nessa lenda! -bracejou minha irmã.
Quando começamos a relaxar acocados em poucos centímetros, ouvi uma discussão, sendo que a regra era silencio total para não chamar atenção dos lopiros. Afinal eram quase cegos, mas ouviam bem!
A balbúrdia estava próxima de nós. E logo alguém arrastou o sofá que nos ocultava. Pensei que fosse o fim!
– Droga tem gente aqui também! – berrou o estranho – Tem espaço aí?
– Sai fora cara, está bem apertado aqui! – defendeu meu namorado.
– Cala a boca! Os lopiros vão ouvir! – pedi em pânico.
E então começou a briga! O encrenqueiro empurrou a gente. O trio reagiu. Outros apareceram para apaziguar. A confusão estava feita no meio da escuridão que a noite trouxe.
De repente um forte estrondo lá fora.
– São eles! – gritou alguém atordoado.
Outros tantos golpes na porta, só que agora por dentro.
– O que é isso? Alguém de nós está abrindo as trancas!? – questionou outro descrente.
Não houve tempo para muita reação. De supetão, diversos lopiros invadiram a casa pela porta destrancada. Deu tempo só para nós do trio corrermos para um canto, entre as garras deles!
Segurando as inspirações para não sermos ouvidos, nos movimentamos ladeando as paredes por trás das cortinas de veludo empoeirado até encontrarmos uma maçaneta que dava para uma passagem estreita. Algo como uma pequenina adega. Nem pensamos duas vezes, pulamos para dentro.
Enfim, respiramos um pouco aliviados. Pelo menos era o que imaginávamos longe da agonizante cena que escutávamos pela portinhola que entramos.
Por longas horas ficamos exprimidos entre as estantes com teias de aranhas aguardando o fim! Seja lá qual fosse! O choro quieto umedecia os ombros do trio enfileirado. Medo, desolação e incertezas. Lá fora uivos, gritos, ossos sendo triturados, móveis quebrados… Os sons eram horríveis. Então, tudo ficou silencioso. Um mudo penoso. Uma ausência que significava que nada restava. Muito menos o tal boato agora desconfirmado.
Percebemos pelas sombras debaixo da portinha que já havia um pouco de luz. O dia estava nascendo. A noite que parecia não terminar se foi.
– Já é seguro? – perguntei baixinho.
Senti ombros moverem-se para cima na incerteza.
– Vou ver! – disse meu corajoso namorado.
Invadida pelo medo não me atrevi a me separar. Peguei a mão de minha irmã e saímos.
A luz infiltrada era muito débil. Pouco se definia nas sombras. Apalpamos as formas para nos guiar. Percorremos a sala e alguns quartos procurando indícios de outros companheiros. Nada. Não preciso nem dizer que o cheiro era de um açougue.
Adiantei-me para um cômodo para inspecionar inconformada por não encontrar ninguém. Um estrondo me barrou.
Vi claramente quando um rapaz entrou pela porta de onde eu estava e sua sombra se transformou em um lopiro. Tremi segurando o susto inspirado. Mas ele me ouviu!
Veio a passos largos em minha direção. Mas eu estava oculta na escuridão atrás do abajur. Senti seu hálito asqueroso, fedendo a carniça diante do meu nariz. Sabia! Fomos traídos! Era uma armadilha! Mas como ele se transformou em humano? Era uma mutação ou tipo de lopiro? Os lobisomens fazem isso, mas os lopiros não! Será que enxergam agora também, ou só usam o olfato ainda? Naquela hora lamentei estar com o perfume que teimava em usar para lembrar os tempos antigos.
À medida que ele tentava me encontrar pelo cheiro, vagarosamente rastejava pela parede. E ele vinha no rastro. Foram longos minutos nessa busca.
– Toma sua criatura repugnante! – gritou meu amor abrindo uma porta que inundou o cômodo de luz.
– Ele não é sensível ao sol! – berrei a todos os pulmões. – É um lopiro mutante!
Nisso, um uivo de chicote cortou o ar e estalou no chão. A criatura aquietou-se estranhamente. E então pela porta aberta, surgiu um ser desfigurado vestindo uma capa preta que dominou a fera e nos estendeu a mão em amparo. Olhamos a oferta desconfiados. Quem era esse cara? Até parecia humano, mas porque a pele dele era tão rugosa? Não era um vampiro, não era lobisomem, muito menos lopiro ou vampilobo! E agora?
– Vamos! – ordenou ele com veemência.
Saí correndo para fora para me afastar do fedor que o lopiro gerava. Olhei para longe, respirando a brisa da manhã e vi o vilarejo antes escondido pela bruma fechada do dia anterior.
– O vilarejo existe! Mas como? – exclamei incerta.
– Sei lá! – disse minha irmã ainda assustada com que tinha presenciado até então.
– Venha, também não sei! Vai ver, aqui domesticaram os lopiros e os usam como cães de guarda! – disse meu namorado segurando minha mão.
– Assim espero, pois acho que não temos muita escolha agora! – finalizei olhando de soslaio a estranha nova figura.

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