Caderno da Renata

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TEXTOS JOVENS LEITORES | Procura-se uma nora

É isso mesmo! Estou à procura de uma outra mulher para o meu filho! Porque essa aí… Não dá! E não vem me julgando! Antes de falar que é coisa de sogra implicante, de mãe superprotetora coisa e tal, ouça as pérolas que a dita nos ofereceu. Tem cada uma! Até um amigo meu, outro dia que contei algumas, me disse:
– Pare com isso! Esse tipo de pessoa, a gente tem que conservar na família. Sempre traz muitas risadas!
Então eu respondi com “Muito obrigada! É porque não é o seu filho que está com essa figura!”. Vejam se não tenho razão.
Pra começar, ela é uma fresca! Muito fresca! Completamente fresca! Insuportavelmente fresca! Daquelas que ganham até de “Gelol gelado” de tão fresca que é! Nunca iria lavar louça! Isso é sandice para ela! Nem pensar estragar a longuíssimas unhas pintadas das mais surpreendes cores – verde militar, azul turquesa, laranja, dourado, fruta-cor – ai meu Deus!
Limpar a casa? Jamais! O suor arruinaria a maquiagem impecável até nos dias de semana. E a umidade da água da mangueira, daria fim na chapinha perfeita que deixa seus longos cabelos pretos no lugar. E fazer comida então? Meu filho vai morrer de fome ou de pobreza, porque por ela comeriam somente pratos franceses preparados por um chef gourmet, francês é claro.
O pior, é que a gente é uma família simples, na boa. Eu sou aposentada e moro num sítio. Então, é claro que na minha rotina não cabem salto alto, unhas perfeitas e rímel nos olhos. Bem que eu entendo que a vida urbana tem dessas coisas de andar sempre arrumado, mas não vem dizendo que TO-DA-MU-LHER anda assim! Ou que elas fazem o que ela faz. Senão é o fim do mundo! Certo, vou contar para começarem a entender.
Meu filho mora em outra cidade, no interior de Goiás. Eu moro no interior de São Paulo. De lá para cá, são muuuitas horas de carro. E nas estradas, a gente encontra mais buracos do que comércio. Não tem nada: nem restaurante, nem boteco, nem lanchonete. Posto de gasolina? Tem que ir meio que cuidando para não ficar sem combustível. É bem terrível. Fora o calor de matar! No verão, você vê tudo distorcido no asfalto. Na semana que fui visitar o meu filho passei até mal.
Bem, dito isso o episódio começa às 4:00h da manhã. Foi nessa hora que marcamos embarcar na van para fazer o trajeto de Goiás para São Paulo, onde todos passaríamos o Ano Novo. Escolhemos esse horário para chegar cedo lá no meu sítio e pegar um período mais fresco do dia, afinal o calor esperado seria insuportável. Estávamos com a lotação máxima, toda família iria, incluindo a moça.
Finalmente, 4:30h aparece a tal! Todo mundo ficou de cara! Não por causa do atraso, mas pela vestimenta! Você acredita que ela veio para uma viagem de 15 horas vestida de longo, salto alto e chapéu de abas largas? Parecia que ia para o Grande Prêmio de Turfe, aquela corrida de cavalos que a mulherada vai a caráter!? Sério, não sabia se ria ou chorava de desespero em ver meu filho pagando esse mico!
Como chegou por último, teve que ficar no banco dos fundos – o pior de todos! Foi sacolejando o trajeto inteiro. E em cada buraco, ela segurava o chapéu com os opositores e os demais dedos em riste! Pra-cabar! Eu olhava de soslaio e lamentava a cena. Mas não é só isso!
Como disse, não tem lugar algum para parar. É tudo deserto. Então para comer, a gente prepara, literalmente, uma farofa, frango assado e salada no dia anterior. Encosta o carro em uma porteira na estrada e lambuza os dedos de gordura mesmo. E para completar, quem quer ir ao banheiro, pega um pedaço de papel higiênico do rolo e segue para o mato! Mulher para um lado, homens para outro. Não preciso nem dizer que a mulher ficou 15 horas sem comer, nem beber e não foi ao banheiro!? Não sei como aguentou!
Durante a viagem ela não disse uma palavra se quer. Enquanto eu fiquei imaginando que para ela estar daquele jeito às 4:30h da manhã, ela não deve ter dormido, né?!
Meus caros, se fosse só essa vez… Mas tem muito mais da onde veio essa! Ouçam isso:
Enfim, chegamos ao sítio onde moro. Como disse, tudo é simples. Crio vacas, tenho uns gansos, um lago de peixes… Bem coisa de… Sítio. Acomodamos todo mundo como pode, o banheiro era um para todos e o pessoal tinha que se organizar para evitar as filas. Conhecendo a peça, fui avisando “Quem demora mais no banheiro vai por último para não atrapalhar, tudo bem?”. Acho que o recado foi dado.
Com tudo ajeitado, o sol de verão estava se pondo, convidei “Vamos dar uma volta para esticar as pernas e verem a paisagem?”. Cada um foi levantando do sofá e já indo para a porta, enquanto a moça seguiu para o banheiro. Olhei para meu filho e comentei, “ok, esperamos um pouco!”. Todos voltaram para o sofá para aguardar a figura. Passados 15 minutos, a família já estava morrendo de tédio. Resolvi ir na frente, meu filho que esperasse a mulher!
Já tínhamos rodado boa parte da propriedade, já começava a escurecer, quando ela aparece: toda maquiada, novo vestido – agora um florido, para combinar com o verde bucólico das plantas – e novamente de salto! Peraí! A gente ia andar no pasto! Será que não seria melhor uma bota Sete-léguas? Podia ser até uma galocha daquelas de oncinha! Mas salto? Salto não dá! O pior… Sim, com ela sempre tem o pior: entregou uma câmera fotográfica para meu filho e fazia pose de modelo de revista, com carão e tudo! Era ela apoiada na porteira. Ela olhando os gansos ao longe. Ela debruçada na pedra do lago. Parecia que estava posando para a Revista Caras! Ridículo!
Não aguentei! Larguei todo mundo e voltei para casa. Isso era demais para mim!
Agora, você já deve estar começando a entender o meu lado. Só que espera para saber o resto dessa aventura (sem graça para mim)… A intenção de estarmos todos ali era o Ano Novo. Não que a gente faça uma super festa com pompa. Era apenas uma reunião de família, simples, em casa mesmo. Coisa básica.
Durante o dia, eu e o resto dos familiares preparamos os pratos da ceia. Os homens cuidavam dos assados e as mulheres das demais receitas e da sobremesa. Menos, é claro, minha nora! Uma chance para adivinhar onde ela estava?! Se arrumando é claro! Ficou O-DIA-TODO, o dia todo se emperiquitando! Do banheiro para o espelho, do espelho para o quarto, do quarto para o banheiro e seguiu no ciclo infindável até a hora da ceia! Isso mesmo! Como disse: O-DIA-TODO!
Todos estavam conversando alegremente na sala de jantar quando surge a moça! Dessa vez, não consegui segurar o susto. Sabe o quadro “O Grito”? Senão o filme “O Grito”? Tanto faz. A cara foi essa! Fiquei de cara mesmo. Parecia que eu tinha sido teletransportada para algum filme! Fiquei na dúvida se era algo como “Diabo Veste Prada” ou “Tropas Estelares”. De mau gosto! A mulher estava toda de prateado, da cabeça aos pés: unhas prata, sandália prata, meia calça levemente prateada, vestido prata, bijuterias (ou joias) prata, maquiagem prata e para completar, uma bolsa prateada! Para tudo! Era uma simples festa de família em um sítio e a fulana se vestia como se fosse para o Oscar! Só se fosse para ganhar o prêmio de nora mais sem noção! Ah não! Passei o jantar todo olhando indignada ela comer fazendo biquinho a cada garfada!
Já contei que ela não sorri?! Isso mesmo, ela não sorri! Por quê? “Sorrir dá rugas”, me respondeu quando eu disse “Sorriam para a foto”. Quase chorei nessa!
Não é a toa que no dia seguinte, quando resolvemos almoçar em um restaurante rural da região, a gente esqueceu dela! Verdade! Todos, incluindo meu filho! Me matei de rir por dentro! Não é ruindade minha, não! Também pudera, vejam a situação… Cada um foi se arrumando e logo sentava no sofá da sala para aguardar a saída. Chegou um momento, que meu filho disse:
– Vamos? Estou com fome!
Beleza! Sem pensar muito, todo mundo se levantou, entramos na van e seguimos. Já estávamos a uns 3 quilômetros quando minha filha lembrou:
– Gente, cadê a mulher?
Isso mesmo, não foi meu filho quem lembrou! Ele nem sentiu falta dela! E o pior… Novamente, com ela sempre tem um pior… Quando voltamos, ela estava trancada dentro de casa, sentada no sofá, olhando a TV desligada! Nem para ligar a TV?
Ok, a semana correu. E foram vários episódios. Teve um do texto em inglês… Ah! Deixa esse pra lá! Vou pular para encurtar a história… Bem, teve outro, em um dia que todos fomos ao Shopping da cidade próxima. E lá, cada um foi fazer alguma coisa. Alguns queriam apenas ver vitrines, eu queria encontrar uma sandália para mim, meu filho e minha nora iriam ao cinema e depois almoçariam e minha filha, coitada, foi com eles. Foi ela quem me contou o lamentável ocorrido.
Eles seguiram em direção ao cinema, não tinham dado nem meia dúzia de passos e a moça falou:
– Preciso ir no banheiro. – com aquela voz em marcha lenta de quem tem nojo de tudo.
Meu filho a ignorou. Nem ergueu as sobrancelhas.
Subiram as escadas rolantes e logo em seguida ela disse:
– Preciso ir no banheiro. – da mesma forma que da outra vez.
Novamente, meu filho nem ligou para o que ela disse. Apenas vez um movimento como se espantasse um mosquito.
Andaram até a bilheteria, e lá ela soltou de novo:
– Preciso ir no banheiro.
Nessa, minha filha cutucou o irmão já incomodada, meio que sinalizando a necessidade da cunhada. Ele apenas disse sem expressão alguma:
– Não liga! – meio sussurrando.
Então, seguiram para fila da sala, foram os primeiros na espera, ainda não tinham liberado o acesso. A funcionária dos tickets aguardava a autorização. De repente:
– Preciso ir no banheiro. – o tom não tinha se alterado, não tinha urgência, apenas ela repetia a mesma frase.
Minha filha, não aguentando ver a mulher nessa insistência, pensou que devia estar apurada. Perguntou onde tinha um banheiro por ali. A funcionária informou que o mais perto era o que tinha na área não liberada. Por insistência da minha filha, a moça deixou minha nora entrar antes do tempo. “Ufa!” suspirou minha filha. Meu filho balançou a cabeça lamentando e perguntou para a irmã logo depois que a mulher foi ao banheiro:
– Sabe o que ela quer fazer?
– Sei lá, número 1… Número 2… ??
– Não! Retocar a maquiagem!
– Não acredito! – muito indignada.
Iriam assistir uma comédia. Ainda bem, nesse caso vale a máxima: é melhor rir para não chorar!

É o fim, né? Só que o dia não tinha encerrado e logo viria mais!
O filme acabou, e então foram almoçar, ou melhor, para ela era degustar algo saboroso. E depois, na sequência, nos encontramos. Foi quando por educação e forçando simpatia perguntei amistosamente:
– E aí, como foi filme?
Minha filha me olhou com um meio sorriso amarelo que entendi de imediato. Resolvi prosseguir:
– E o almoço?
– Foi ótimo! Almoçamos uma salada deliciosa! – respondeu minha nora no jeito animado dela, contido e falso.
– É mesmo? – continuei no clima de amenidades com minha querida nora – Onde?
Um grande silêncio se instalou. Minha filha parecia que já previa o que viria, só suspirou. A moça ficou calada, pensando e eu sem entender. Então finalmente minha nora largou:
– Almoçamos em uma lanchonete cujo nome é o som que o cachorro emite! – em tom solene como em um pronunciamento oficial.
Ãh?! Pensei. Troquei olhares com os demais. Todos, entre o descrédito, o sorriso e a dúvida. Suspendemos a reação até entender. Sério, fiquei muda tentando imaginar se ela estava falando de brincadeira. Me senti num programa do Silvio Santos com aquelas perguntas… “O som que o cachorro emite é…!” Comecei a rir um pouco desconfortada, parecia piada ou pegadinha. Mas era de verdade. Não consegui nem segurar meu espanto total e entre o riso de inconformação falei:
– Au-Au? Vocês comeram no Au-Au? A lanchonete de cachorros-quentes? Au-Au!? Isso?
Acreditam que ela não quis disser Au-Au? Coisa de gente doida isso! Todo mundo fala Au-Au! Vai, me diz um motivo para não falar Au-Au! Pensei em tudo, mas não tem! Ela não bate bem mesmo!
E para fechar o dia, afinal ainda o sol não tinha se deitado, meu filho e ela resolveram pegar a van e dar uma volta simples na cidade para ela conhecer. Foram só os 2. A gente não aguentava mais!
Passada algumas horas, o Shopping perdeu a graça e o cansaço bateu. E minha filha teve a iniciativa de ligar para eles para ver se iam demorar. Discou e logo atenderam:
– Oie! – disse minha filha cumprimentando a cunhada que atendeu – Posso falar com o mano?
Se segurem, a resposta fará muitos caírem da cadeira, outros irão chorar – como eu -, talvez você apenas lamente minha infelicidade e me ajude enfim na missão de encontrar uma outra nora. Eis o que a moça respondeu na íntegra, sem cortes ou edição:
– No momento, ele não pode atender, encontra-se ocupado, dirigindo. – com voz de telemarketing – Se preferir, deixe seu recado e ele retornará a sua ligação.
Assim mesmo, como uma secretária eletrônica, só faltou fazer “biiiip” no final!
E então, tenha pena de mim! Fala! Conhece alguém para eu apresentar para meu filho!?

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