Caderno da Renata

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TEXTO JOVENS LEITORES| Aventura suspensa

As chicotadas úmidas dos galhos molhados nas pernas deixavam vergões ardidos. Os grandes pingos de chuva que caiam das copas das árvores, ao invés de refrescar, intensificavam a sensação de mormaço da tarde encalorada. Se fossem esses os problemas, não se deixariam abater. Mas sabiam que ainda estavam atrás deles. Ao longe ouviam os latidos da matilha. Os meliantes estavam se aproximando. Para piorar, o braço gravemente machucado de Felipo latejava alucinadamente depois da nova queda:
– Acho que você quebrou o braço, cara! – comentor Marcus reparando no ferimento do companheiro de fuga.
– Também acho. Mas temos que continuar! E mais rápido!
– Se você não tivesse contado! Seu traíra! – gritou aos sussurros Marcus.
– Não! Não fui eu! Você tem que acreditar!
– Em você? Não seria a primeira vez que bancou o traidor! – disse Marcus antes de embrenhar-se entre os bambus.
A touceira estava muito fechada, difícil de transitar. Além do mais, as folhas e farpas rasgavam a pele já bastante ferida. Tentaram por mais alguns metros e enfim Marcus determinou:
– Não dá! Está muito entrelaçado. Estamos em uma arapuca de bambu!
– Psiiiii! Fica quieto! Veja! – apontou Felipo para um vulto distante de um homem armado.
Era nítido que não tinham mais escapatória. Bastava serem farejados e logo seriam mortos. Prenderam a respiração, tentaram se camuflar ainda mais em meio aos brotos e folhagens. Faziam micro movimentos para evitar os estalinhos das folhas secas sob os pés. O suor escorrido misturado à chuva que caia. E de repente…
– Ah não! O telefone! Bem agora! – enfiou o marcador na página, fechou o livro e levantou-se para atender.
– Ei! O que aconteceu? Porque escureceu tão rápido? – questionou Felipo para Marcus ainda sussurrando entre o pavor e o susto.
– Sei lá! Há uma luz vinda daquela fresta distante! Tem algo mais lá?
Rastejantes, atreveram a serpentear por entre uma nova selva: a de palavras pela imensidão da página. Através da escuridão, tropeçavam nos pontos e nas vírgulas. Saltavam reticências e escalavam parágrafos. O trajeto era longo, e por vezes sentavam nos travessões para descansar e cuidar dos ferimentos. Apesar do medo ser grande, a curiosidade os impelia para a luz. Mesmo porque, não tinham alternativa anterior. Pelo menos essa aventura poderia mudar o rumo do já sabido destino.
De certa forma, o inesperado confundiu os bandidos, que ficaram tontos e desorientados, apenas aguardando novo momento.
A viagem dos dois até o topo da página foi longa. E qual foi a surpresa ao chegarem lá? Encontraram um estranho personagem gordo alaranjado deitado em um retângulo de papel onde se lia:
– Garfield!? – indagou-se Marcus.
– Quem está aí? – perguntou a figura do gato.
E logo, Felipo e Marcus bateram em retirada para trás do título do capítulo, em uma tentativa de se esconderem e se refazerem do susto.
– O que fazem aqui? – inquiriu a ilustração do marcador de páginas – Novatos! Não sabem que devem aguardar nos seus devidos lugares para prosseguir a estória do ponto em que estavam?
– Como assim? – estranhou Felipo – Quer dizer que viemos aqui em vão?
– Os bandidos ainda irão nos pegar? – perguntou ansiosos Marcus.
– Por um acaso eu tenho cara de vidente? Não li a estória, não! O que sei é que assim que eu sair daqui, tudo continuará de onde parou! – explicou Garfield, o marcador.
– Ah, essa não! – lamentou Marcus largando-se no vão da letra U.
– E se você não sair daí? Viveremos na escuridão, só aguardando? – raciocinou Felipo.
– Como já disse, não sou vidente, mas até onde sei, algum dia devo daqui. Na verdade, se a estória for boa, isso deve ocorrer logo! – respondeu Garfield cheio de mau humor. – Então, voltem já lá para baixo e fiquem quietos!
– Não tem como NÓS sairmos daqui!? – imaginou Marcus forçando o monte de folhas e a capa para cima.
– Você não sabe nada mesmo? – indignou-se Garfield. – Você mora aqui! Não pode sair! Aqui é o seu lugar! No máximo, pode coexistir. Ficando aqui e na memória do leitor.
– E você não morre de solidão, aí sozinho? – insistiu Felipo ao gato laranja.
– Na verdade é um pouco parado. Mas de vez enquanto aparecem uns novatos, sabem que mudam a rotina! Agora vão! – ordenou Garfield com veemência.
Desestimulados, Felipo e Marcus deram meia volta, deixando o marcador para trás. Cabeça baixa, as dores perturbando mais intensamente, seguiram apáticos pela frustração de novamente se encontrarem em um beco sem saídas. Vagarosamente, quase se arrastando, retornaram por entre as diversas frases do texto. A curiosidade deixada no topo da página já não ajudava na tarefa. E quando já estavam quase chegando ao ponto em que tudo fora suspenso pela escuridão, uma luz ofuscante os paralisou:
– Onde eu tinha parado mesmo? – disse o leitor.

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